quarta-feira, 9 de março de 2011

O Padeirinho

Bom dia, ele disse. Todos em volta responderam seu silêncio arrogante, típico do sistema em vigor. Está escuro! Alguém sussurrou aos risos. Algozes só da indiferença. O sorriso torto do garoto demonstrou segurança, enquanto pegava tremulamente sua bengala, e saiu do hospital à andadas dos fins de setenta. A fila do ambulatório mexeu algum meio metro depois de sua saída, e ainda fora, ele avistou ataduras alvas, confortáveis no braço da moça de 14. Moto minha senhora? Olhou para a mãe. Que moto nada! Essa pequena anda roubando manga por ai. O Senhor menino olhou com curiosidade a menina de braço enfaixado. Voltou ao ambulatório, entrou e intercedeu por ataduras, muitas. À base dos 17, andava surdamente pelo subúrbio movimentado. Chapéu de palha, barbicha cultivada, alimentado por sua inteligência de gigante. Andava... andava e nada conhecia. Conhecia o sol e sua afinidade por vitamina D. Conhecia línguas e criava-as.
Na outra manhã, Joaquim do quindim espantou-se com o vulto alvo na sua padaria. Era o Senhor menino. Enfaixado, dos pés à cabeça. Seu Joaquim pergunta por que estás assim? Morri (seco). Ele sai. O sorriso preocupado do padeiro não deixa negar seu preconceito nem aversão ao não-crítico. O de 17 vagou mais uma vez pela padaria até que saiu abeirando a calçada. Importados tiravam fino do garoto-idoso. À luz da D, olhavam-no, sussurravam e riam do fora-de-si. E riam do fora-de-si... E ele grtiava Morri (seco), morri, morri de vós, morri de falta de calor, morri de amor pelo que não existe, morri de dor pelo que existe, Morri (seco)!
Queriam juntá-lo aos outros fora-de-si. Babacas são os vivos, babaca são os vivos!! Esperneava sua joviedade o morto. Julgavam-no os vivos. Babaca são os vivos... Era surpresa de todos a mudança do jovem-idoso depois de completo os 17. Antes era mais jovem, comentou o jornaleiro, andava com os meninos de pipa, não descia da bicicleta. Mas sua osteoporose o impossibilitou de outra vez nela subir. Aproximou-se do padeiro Joaquim, Morra também, morra comigo. Aproximou-se a Regina sua amiga de ejáculos, Morra também, morra comigo! Aproximou-se de Bento, Morra também, morra comigo. Nessa hora, Bento chorou. Na próxima hora, Regina chorou.
No dia seguinte, o jornal do bairro publicou em primeira página “O doido do Padeiro”. E só quem estava preocupado com o noticiário eram os vivos. O fora-de-si vagava ainda com as ataduras. Todos sabiam que debaixo de toda aquela branquidão, estava a barbicha e um rosto limpo, lindo e bem cuidado português. O sorriso alvo e sempre vivo não era mais qualidade do Seu menino. Saber ao certo sua doidice ninguém sabia, mas desconfiavam. Foi depois do acontecido com Bento. Bento seu amigo de colégio. A mulher do Joaquim dizia que nunca mais os vira juntos, e sempre estavam juntos. Agora era só Regina, só Regina. 
Neste momento, o enfaixado sai da casa e tenta subir na bicicleta. Consegue. Pedala até o rio. E pedala. Foi um súbito que o deixo de tal maneira. Bento atrás dele. Regina atrás dos dois. E iam até o rio. O sol beijando o manto, linda iluminação, Ele achou. Belo lugar para ser enterrado e assim ficar eternizado, gritava feliz em seu interior. Do cais pulou ele. Depois disso, Bento gritou um Nâo. E depois Regina gritou dois Não. Ataduras não se viam mais. A bicicleta na beira. Na beira estava uma imagem de segundos antes, que nem Bento nem Regina esqueceriam. Agora, ele de fato morrera para os vivos. Era como queria estar.

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