terça-feira, 26 de outubro de 2010

Coming back to ten.

A sensação me surpreendeu. O que eu queria fazer, então, no passado? Dá-lo valor. Era isso e eu sabia muito bem. Queria de volta o verde, o vapor d'água, o som do nada... Descanso. Tentar voltar a um estágio da vida que nos surpreende a cada instante que lembramos como aquilo era bonito. Infância sufocante de uma pira-pega, uma polícia contra ladrão, uma pira-bujão, bola não, nunca me dei bem com ela. Infância esta que me recordo com afeto, não saudade.
Desta vez, bestifiquei-me com a vontade de fazer coisas de sete anos atrás. Andei de bicicleta sem as duas mãos no guidão, juntei castanha de cajú pra fazer paçoca em fogo de madeira e em cima de um pedaço de ferro que é resto de um fogão velho. Velhos tempos... Brinquei de peru com Vinícios e Carol, acho que eles devem ter oito cada, mesmo assim quase não fui o peru do jogo. Tomei banho no Guamá e, como sempre, fiquei gripado. Não sei trancrever a minha relação com esse rio, mas ele sempre deixa marcas em mim... Finais de aulas de educação física em uma tarde chuvosa, seis da tarde precisamente, domingos tardios e monótonos, as bóias de pneus de caminhão, eram as menhores... Pena que isso tudo perdeu a frequência. Apenas a frequência, pois nunca deixarei de manter contado com o meu Guamá. Ver a Dianga olhar o céu a procura de uma esperançosa nuvem que molhe suas imortais plantas para que não desgaste mais seus ossos porosos as molhando é impagável. Ver aqueles fiozinhos rosa pintando o chão do quintal que aparentemente diminuíu é terapêutico. Sentir meu pé imundo com pouco atrito na sandália é divertido. Seria fracassado se não tivesse nascido e vivido minha vida pré-7teen ali. Admiro muito naquela cidade os que não falam, pois os opostos sofreram lamarckismo creio. As línguas quilométricas evocam a cultura mistica daquele lugar a todo instante. Raramente vê-se brigas findarem de um modo bom, quando findam. Esta é uma das minhas novas manias, provocá-las. E consigo. O conhecimento que adquiri fez com que a minha vida ficasse mais bonita, aliás, criei-a do meu modo agora. Gosto de observar, analizar, crítico social me tornei, e dos viciados. É engraçado ver as mentes do século dezoito perdurarem ainda hoje. Ver como a escola varguista, ainda ativa hoje em muitas instituições, criou e "conservou o conservadorismo". Sinceramente, não sei o que é mais fútil: se é ter uma preocupação por se vestir bem ou uma preocupação pelo fato da vizinha querer se vestir bem. Quando me dou a andar à tardinha, fico imaginando o que as mentes setentistas sabem. O que os chapéis de palha me contariam, o que o rio me dirira. Eu riria, temeria?
Decerto a sociedade que evolui apenas tecnicamente me desperta interesse e me faz pensar que globalzação é papo dos States. Assim como eles riem do buraco na minha blusa, rio da superioridade social que os jovens dali acham que têm. Não quero ser etnocêntrico, pelo menos neste veículo comunicacional, mas concerteza o forró ouvido por eles os torna superiores sim. Os ensurdecedores barulhos dos motores das motocicletas viniladas e neonzadas talvez chame atenção pelo alto teor de ridicularidade pessoal deles. A grana que eles esbanjam e adoram ilustrar talvez os proporcione sim noites especiais. Noites cheias de amigos tóxicos, prostitutas dispostas a umas boas sacanagens, parceiros que odeiam as suas piadas. Sim, ou vocês nunca repararam nos tapinhas mal dados nas costas, ou na ótima vontade que têm em limpar sua boca molhada de vômito? Como disse, isso me desperta interesses, que me fazem buscar respostas no círculo vicioso e conservador familiar.
As famílias de Ourém são as grandes responsáveis pelas personalidades instigantes que nos rodeiam nos domingos pós-missa. Conheço-as bem. Como também conheço suas frases mais marcantes: "Pequeno não faz isso, porque se não VÃO FALAR DE TI POR AI". Não existe mais engraçada. Se nunca entenderam porque tanto quis sair dali, está aqui a resposta: Não pertenço a este mundo: Pequeno, Hipócrita, Fútil, Pequeno! A semente da coragem deu lugar a uma frondosa angiosperma cheia de frutos com sabores, cores e tamanhos diferentes. Tenho sangue frenético que não para. Tenho dez dedos que nao param. Tenho orgulho do meu egoísmo, e de assumí-lo. Tenho orgulho de ser o que sou e de dizer que não fui feito, "me criei". Criei-me no meio de paçocas, pupunhas, caroços de açaí em baladeiras de balão, cordão de suor, jia no banheiro, no cafeeiro do fundo do quintal da vovó (meu esconderijo favorito), no meio das lágrimas das crises existenciais infantis, no meio do colchão em que decidi me despedir deste mundo, quando juntei meus brinquedos favoritos e dormi dentro do colchão, imaginando que ficaria ali até não voltar mais. Acharam-me. Talvez se demorassem mais meia hora tinha conseguido. Dai seria melhor? Não sei. talvez eu tente novamente...

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